Colheres de pau em vias de desaparecer
A legislação não proíbe as colheres de madeira, mas condiciona a sua utilização em função do estado de conservação, diz, à agência Lusa, um técnico da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), admitindo, porém, que «pode ter passado a falsa ideia» de que é um utensílio proibido nos restaurantes e estabelecimentos similares.

Até há cerca de 20 anos era rara a família que, em Benfeita, no concelho de Arganil, não tinha pelo menos um colhereiro, mas hoje já quase não há, ali, quem faça colheres de pau.

A concorrência de ligas metálicas e, sobretudo, do plástico, reduziu, de forma acentuada, a procura do utensílio, que também teve como adversário a deficiente interpretação de normas legais.

Mas a agonia das colheres de pau de Benfeita começou muito antes da publicação daquela legislação. Teve início quando a concorrência do plástico lhes impôs uma luta desigual.

«Nas décadas de 70 e 80» do século passado, «ainda havia muita gente que vivia disto», particularmente nas aldeias de Pardieiros, Luadas, Enxudro, Sardal e mesmo na sede da freguesia, recorda o presidente da Junta de Benfeita, Alfredo Oliveira Martins.

As colheres de pau de Benfeita eram como que um ícone da freguesia, do concelho e até da Beira Serra, constituindo mesmo «uma receita importante para a economia local», acrescenta o autarca.

«As colheres de plástico», nos mais diversos e sedutores feitios, tamanhos e cores, «tiraram a venda a estas», lamenta Acácio Duarte, 77 anos, um dos dois últimos colhereiros de Luadas.

«Comecei nesta arte, com o meu pai, quando tinha 16 ou 17 anos», conta à Lusa o artesão, que «praticamente já não faz colheres», em pinho, como manda a tradição de Benfeita.

«As ferramentas já ganharam ferrugem», desabafa, exibindo os instrumentos com que, durante anos, moldou «colheres de todos os tamanhos».

As suas colheres chegavam «ao país inteiro», através de intermediários, que forneciam «todo o tipo de feiras» e estabelecimentos comerciais, «alguns até bem finos».

«Isto parece que terminou». Com as colheres de pau «já não se tira ordenado», por mais pequeno que seja, garante Acácio Duarte.

Já «não há quem queira aprender a fazer colheres».

Mas, «mesmo quem sabe, teve de procurar outra coisa», afirma José Pinheiro, 38 anos, ex-colhereiro e, agora, artesão de xisto.

José Pinheiro, colhereiro desde os 15 anos, deixou «as colheres pelos 23/24 anos» de idade – «davam pouco e comecei a trabalhar no xisto», justifica.

«De dia fazia colheres, à noite peças em xisto», pois, já nesse tempo, «tinha de arranjar maneira de complementar o ordenado», explica à agência Lusa o artesão de Luadas.

A maior parte dos colhereiros de Benfeita abandonaram por completo, no entanto, o artesanato.

«São raros os que se mantém na profissão» e, em grande parte dos casos, já só através da cestaria de verga. Mas também esta actividade, diz o presidente da Junta de Benfeita, começa a caminhar para a extinção.

Fonte Lusa

 

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