Comida cara afeta a segurança alimentar nos países mais pobres
Famílias do Paquistão até ao Congo, passando pela Argentina, estão sendo afectadas pelo aumento dos preços de alimentos que estão levando mais pessoas para a pobreza, criando tensões políticas e forçando muitas pessoas a desistirem de comer carne, frutas e até mesmo tomate.

Lutar para conseguir a próxima refeição é ainda uma realidade sombria nos países em desenvolvimento apesar da crise de alimentos global que dominou os títulos dos jornais em 2008 ter desaparecido rapidamente nos Estados Unidos e outros países ricos.

Com a comida custando até 70% da renda de uma família nos países mais pobres, o aumento dos preços está apertando os orçamentos domésticos e ameaçando aumentar a malnutrição, enquanto a inflação permanece moderada nos Estados Unidos e Europa.

Majeedan Begum, de 35 anos, uma mãe paquistanesa de 5 crianças, disse que um saco de farinha de trigo para o pão, a parte mais importante da dieta de sua família, custa três vezes mais que há dois anos em sua cidade de Multan. Ela não consegue mais comprar frutas ou carne. Meu orçamento doméstico foi arruinado, disse ela.

O índice de preços de alimentos da Organização para Agricultura e Alimentação da Organização das Nações Unidas, a FAO, que inclui grãos, carne, lacticínios e outros itens de 90 países, subiu 22% em Março perante igual período do ano anterior, embora ainda esteja abaixo dos níveis de 2008. Em alguns mercados asiáticos, os preços do arroz e do trigo estão entre 20% a 70% acima dos níveis de 2008.

Muitos governos culpam o clima seco e o alto preço dos combustíveis, mas críticos em países como a Índia, Argentina e Egipto, dizem que a aplicação de políticas erradas estão tornando a falta de alimentos ainda pior e um acordo de fornecedores podem estar pressionando ainda mais os preços.

Nenhum factor simples explica a diferença da inflação entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento, mas as economias mais pobres estão mais vulneráveis a uma série de problemas que podem alavancar os preços, e muitos estão surgindo este ano.

Produtores com menos terra e irrigação estão sendo duramente atingidos por secas e enchentes. Guerra civil e outros conflitos também podem interromper o fornecimento de alimentos. Os preços em economias dependentes de importação sobem de forma expressiva com a moeda local se enfraquece, como aconteceu com a rupia do Paquistão este ano.

Os custos também tem sido elevados por uma recuperação dos preços das commodities a nível global, especialmente para a soja destinada para o consumo asiático. Isto levou a Argentina a produzir mais soja para exportar, o que provocou desabastecimentos locais de carne e outros alimentos. A crise financeira global atingiu a produção de alimentos em alguns países tornando mais difícil para os produtores conseguirem crédito para adquirir sementes e outros produtos.

Comida cara afeta a segurança alimentar nos países mais pobres

Na Mauritânia, no oeste africano, os preços do arroz dobraram nos primeiros três meses do ano, de acordo com o Programa Mundial de Alimentação. No mesmo período, o preço do milho subiu 59% no Zimbábue e 57% em Moçambique. Em Kinshasa, na República Democrática do Congo, Mami Monga paga US$ 25 por uma caixa de peixes que custava US$ 10 há um ano. O preço de um saco de 25 kg de arroz dobrou para US$ 30 no mesmo período. Hoje eu sou obrigada a comprar metade da comida que eu comprava no ano passado, disse Monga, que é mãe de 5 filhos.

Também em Kinshasa, o comerciante Abedi Patelli disse que os preços sobem quando a taxa cambial do Congo cai. Mas quando nossa moeda se fortalece em relação ao dólar norte-americano, os preços não voltam a cair, disse ele.

Segundo o porta voz do Programa Mundial de Alimentação, Greg Barrow, países mais pobres acabam travando o preço nas altas devido ao elevado custo de transporte e falta de competição. Os preços caíram de forma dramática no final de 2008 nos mercados internacionais mas eles continuaram elevados em muitos mercados locais de países em desenvolvimento, disse. Depois que o custo dos alimentos sobem, eles demoram muito tempo para recuar, explica.

No Egipto, uma alta de 50% no preço das carnes nas últimas semanas ajudou a realização de protestos em frente ao parlamento sobre salários e outras questões económicas. Eu tenho medo de acordar um dia e não ser capaz de conseguir pão suficiente para minha família de 12 pessoas, afirma Aboulella Moussa, porteiro de um prédio de apartamentos no Cairo.

Pessoas entrevistadas em diversos países dizem que não estão apenas cortando os itens mais caros de alimentação mas também estão comendo menos, uma tendência que acendeu a preocupação sobre malnutrição. Está tudo muito caro, então nós estamos comendo menos, disse Seema Valmiki, de 35 anos, que está criando três crianças em Nova Deli, com seu marido, com um orçamento de US$ 135 mensais. Valmiki diz que não pode mais comprar carne, frutas ou peixe e deixou de comprar para seus filhos novos uniformes escolares, brinquedos e uma bicicleta. Se nós compramos frutas para eles, nós não podemos comprar comida como arroz e vegetais, ela disse.

Antes, nos podíamos comer carne três vezes por semana. Agora, é apenas uma vez, se tivermos sorte, diz Marta Esposito, uma mãe de duas crianças, de 45 anos em Buenos Aires. Tomates, nem me fale. Nós comemos aquilo que estiver mais barato, disse.

Na Índia, o preço dos alimentos subiu 17% em Abril em relação ao mesmo período do ano passado mas o governo espera que se as chuvas forem normais nesta safra, o fornecimento de alimentos irá aumentar. O aumento nos preços foi provocado em parte pelo aumento da demanda dos pobres da zona rural, que podem comprar mais alimentos graças aos programas do governo de criação de empregos e redução de débitos. A longo prazo, especialistas dizem que a Índia, com mais de 1 bilião de pessoas, tem que acelerar a expansão de sua produção de alimentos se quiser equilibrar demanda e oferta. Nossa capacidade de alimentar todos os indianos está sistematicamente caindo com o tempo, disse Harsh Mander, que foi designado pela Suprema Corte da Índia para monitorizar a fome. O mercado mundial não pode nos derrubar, disse.

Fonte Cruzeiro do Sul 07-06-2010

 

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